Viagem à Índia (7 - 31/01/2026)
- vocalpsychotherapy
- 14 de jan.
- 42 min de leitura
Atualizado: 2 de fev.
Primeiras Impressões

Dia 1
A viagem durou 33 horas no total, senti-me como que "amassada" com tantas viagens de avião (3) e tanta espera entre vôos, necessária porque levávamos violinos como bagagem connosco e só a British Airways tem uma opção simples para instrumentos. Creio que não consegui dormir durante todo este tempo. Jantei e tomei o pequeno-almoço com cerca de 4 ou 5 horas de intervalo. Ainda deu para ver um filme durante a viagem, depois foi enroscar-me no leve cobertor e tentar dormir...
Chegados a Delhi, quem não tinha os dados biométricos teve de os fornecer, não há hipótese de contornar, é obrigatório e arriscamo-nos a não poder entrar no país, pois assim que chegamos à alfândega temos logo que os usar.

Ainda no ar, chegando a Delhi, comecei a ver uma quantidade inacreditável de luzes juntas das mais variadas cores, predominantemente branca, de uma intensidade imensa, como as luzes que temos agora nas ruas, mas em vez de x em x metros, muito juntas, como que em grupos.
Uma vez cá fora, fui surpreendida pela intensidade dos apitos, mesmo já sendo nove da noite, do cheiro da poluição (não consigo andar sem máscara, é um ataque permanente às vias respiratórias), o caos organizado do trânsito em filas paralelas, mas que flui, as acentuadas diferenças sociais, a pobreza, a sujidade, e a palavra-chave da Índia é para mim Intensidade. As pessoas parecem ser muito focalizadas no que fazem e naquilo que é a sua atividade, e isto em qualquer tipo de pessoa. Percebem o que percebem do assunto e fazem-no com afinco. A sensação com que fico é a de um grande foco, a dispersão, uma espécie de défice de atenção que acaba sempre por encontrar uma maneira de resolver a coisa. As pessoas com educação universitária aliam inteligência a criatividade e genialidade por vezes, vejo isso em colegas músicos com outras profissões de grande utilidade e mérito, tendo grandes capacidades, e um coração grande.

Chegada ao local onde ia ficar, acolheu-me uma mulher linda, mais ou menos da minha idade, e a filha. Nessa noite o quarto pareceu frio e pouco acolhedor, mas estava frio para a época, apesar dos dez graus, e os dois cobertores finos em poliéster não foram suficientes (durmo agora com 4). Mas valeu-me a camisola em mohair da viagem, e os collants em lã...Entretanto o tempo aqueceu e temos tido temperaturas da ordem dos 21 graus e vai continuar a aquecer...


Dia 2
Acordei na primeira manhã por voltas das 9:30 locais (4 da manhã PT). Olhos inchados e vontade de continuar a dormir, mas vi as horas e tinha combinado ir comer a essa hora. Apressei-me, comuniquei com a anfitriã, e tomei o pequeno-almoço.

Nesse dia tivemos um primeiro ensaio em casa do Tarun, que nos acompanha quando vai a Portugal, e que o Stephen conhece há muito tempo, é nosso colega e guru do Miguel, o nosso tocador de Tabla português que ficou em casa dele. O Riky, que colabora connosco com a sua flauta transversal Bansuri e que vive em Londres, também veio ter connosco e tivemos um excelente ensaio de reencontro.

O Stephen ficou em casa da Shubra Guha, uma grande cantora que é a guru dele, A Shubra já esteve em Portugal no ano passado, foi nessa altura que a conheci pessoalmente. É ao memo tempo uma mulher doce e rigorosa, com uma experiência, sabedoria e conhecimento da música clássica indiana preciosas.



Dia 3
No sábado, dois ensaios e fiquei a descansar em casa da Shubra enquanto o Stephen tinha a aula para o concerto que vai dar no dia 21 na academia de Investigação Sangeet onde é convidado especial entre outros. Estava bastante cansada ainda do jet lag, mas felizmente ontem, domingo, comecei a acordar à minha hora normal...
À noite deu para conhecer melhor a minha anfitriã Malika, tivemos uma longa conversa onde se falou da atividade profissional de cada uma e de espiritualidade. Falamos sem dúvida, a mesma linguagem, com vestes ligeiramente diferentes. Fiquei a perceber melhor o que são os Gita, sobretudo através dos diálogos entre Krishna e Arjuna, que acabam por ser preceitos de comportamento para interiormente evoluir e nos ligarmos à Consciência Universal.

Dia 4
No domingo de manhã estivemos a escutar uma lição sobre um dos capítulos de um Gita (há vários), em inglês, por um guru que explica o que vamos lendo, e até consegui ir pronunciando com a Malika os versos em sânscrito que estavam transcritos para a nossa ortografia. Acho sempre fascinante pronunciar palavras desafiantes e os nomes das pessoas daqui também têm o seu quê, pois como não são familiares são muito mais difíceis de memorizar. então era interessante discutir e tentar compreender não só os conceitos mas aquilo que implicam ao nível do coração. Coração e mente superior a trabalhar em conjunto para o alargamento da consciência com os outros seres e com o todo, cosmos, universo, Manifestado/Imanifestado, enfim, o todo que existe para além
deste conceito, que por estar a ser definido, ainda é mais, para além disso.

Uma das coisas que me preocupava e que não me atrevia a dizer aos meus amigos e família era que ia ficar separada dos meus colegas, Aliás, ficámos todos separados. Eu sentia mais receio pelo que quem tia receio expressava e tentava não me deixar influenciar, falei com o Stephen várias vezes sobre isso e ele deixou-me à vontade para tomar as decisões que quisesse. Eu tinha conecido em Portugal através dele, uma família de músicos de cá, e tinha entrado em comunicação com a filha, uma excelente violinista que está a terminar o internato em medicina.Eles tinham-me convidado a ficar em casa dele, disseram que tinham um quarto, e eu pensei em ir para lá. Mas o Stephen já os conhece e já tinha estado em casa deles e convenceu-me para ficar aqui, e se depois eu quisesse lá ir passar uns dias, teria esta base na mesma. Foi muito diplomata.
Com uma Malika cheia de pena por eu me ausentar por uma semana (era esse o plano), lá fui eu para casa da Ongira, Debjani e o seu marido. Fui ontem à noite, domingo, , cheguei por volta das 19:30.

A Debjani também é cantora de música clássica indiana e curiosamemente tem exactamente a mesma idade que a Malika. Mal cheguei quis dar-me uma aula, ao que acedi. foi muito interessante, porque ela cantava em hindi, traduzia para inglês, depois eu traduzia para português e ela cantava e adaptava a melodia para a minha língua, e foi mesmo bonito! Bebemos um chá e ela queria muito continuar, às tantas eram 10 da noite e ainda não tínhamos jantado. aqui, as pessoas parecem ter alguém para fazer a comida, mas a pessoa que costuma ajudar não pôde ir durante vários dias, pois o marido, ao querer ajudar/salvar um cão na rua tinha caído da bicicleta e tinha-se magoado seriamente.

Então é interessante ver todo o caos que se gera numa cozinha minúscula onde a loiça não é lavada regularmente, onde a comida é feita e tudo se vai amontoando, é simplesmente hilariante ver toda a boa vontade em querer oferecer algo sem ter muitas condições logísticas, mas a fazer um esforço incrível sem me deixar fazer nada. Foi improvidado um cuscus com legumes mas o cuscus era uma pasta , acreditem ou não, estva delicioso! as misturas de especiarias são divinais e gostei muito do jantar improvisado, ainda por cima porque tinham feito frango e tiveram de criar um prato vegetariano que também lhes serviu de acompanhamento.

O Stephen bem tinha dito que era uma família um pouco caótica, e ele foi muito simpático... É realmente interessante ter duas perspectivas de lar diferentes. Aqui estou numa casa de família que pertencia aos pais da Malika, que tem em baixo a caso dos empregados, no primeiro andar há quatro quartos bem grandes e altos que se pode alugar numa espécie de booking indiano, no andar de cima os anfitriões e em cima (1/2 apartamento) vive a filha Dhruvi. Tudo é super organizado. O avô da Malika era juiz supremo ao nível nacional, a mãe médica, o pai, já não me lembro. Mas desse casamento combinado nenhum dos filhos foi obrigado a casar com quem não quisesse, tendo feito a sua escolha, e todos trabalhar em prol dos desfavorecidos.
Em casa da Ongira, alta ciatividade e grande caos de funcionamento familiar, falam com uma rapidez que raramente ouvi, estão constantemente a mudar de ideias e a encontrar soluções para as questões a resolver. Consegui comer por volta das 10:30 e devo ter-me deitado por volta das 11 e meia. apercebi-me de que a mãe e a filha iam dormir juntas porque eu ia dormir no quarto da filha e a meio da noite, pelo ressonar percebi que o pobre Angshuba estava a dormir num sofá desconfortável. Aqui as camas são muito duras, então um sofá com braços para a pessoa se encaixar, ainda pior...
Comecei a pensar ainda quando me ia deitar que talvez ficasse umas 3 noites... Já tinha percebido que ia ser intenso mas estava curiosa...
Dia 5

De manhã acordei e sentia-me tonta. Tinha transpirado a meio da noite, o quarto não tinha ventilação. O mau-estar foi-se acentuando e tive de decidir voltar para o sossego desta casa. Situada numa zona afastada da estrada pricipal Pouco barulho e menos poluição. Escrevi a Stephen que me viria buscar para mais um ensaio e arrumei as minhas coisas. Expriquei à Debjani que visto não me estar a sentir bem era melhor ir-me embora.Pediu desculpas e assegurei de que era melhor assim para mim. Ela ficou triste mas combinámos que o Stephen e eu ainda iríamos lá almoçar. Não iria conseguir estudar nem fazer nada naquela casa. Não percebi bem se foi desidratação, ou a água filtrada da casa, ou ter jantado tarde e ter ido dormir pouco tempo depois, mas a transpiração noturna também devia denunciar algo.

O ensaio correu como foi possível, estava bastante cansada e não conseguia pensar. Bebi bastante água e depois do almoço senti-me melhor. Ao final do dia tivemos aula com a Shubra e depois vim para casa. Soube mesmo bem jantar com a Malika e a Dhruvi e vir iniciar este blog.
O Stephen tem tido o cuidado de me acompanhar em uber, mas agora já consigo sozinha e aqui há sempre a hipótese de pagar em dinheiro em vez de adicionar um cartão. Por exemplo, ir daqui para casa da Shubra custa 77 rupias. Dei 100 e pedi para guardar o troco. 77 rupias são cerca de 77 cêntimos e sabemos que a Uber explora os condutores, imaginem aqui... Para cá, em hora de ponta, 117 Rupias por ser hora de ponta e este condutor cortou caminho, cheguei em 9 minutos em vez de perder 1/2 hora. Pedi troco de 140. 1€40... a sério?

Os corvos estão muito presentes aqui em Kolkata. No primeiro dia vi um feridoa tentar andar. Passou um tuk-tuk e eu pensei: já foste... enfim...
Dia 6

Hoje conheci a Sangeet Research Academy . É um edifício lindo da época colonial,imponente. Fomos ver o Stephen a acertar as composições com o tablista para o concerto onde vai participar no dia 21. Após um percurso atribulado em que vi que não ia chegar a horas por causa do trânsito e porque faltava a sigla da academia na morada, e não sei por que razão fomos parar perto mas um pouco afastado (e o condutor não sabia onde era, finalmente alguém lhe disse e lá chegámos.Cobrou mais 50 rupias por isso e quando lhe dei uma nota de 500 para pagar 185, disse-lhe para fazer troco de 200. Deu-me 200 e disse-lhe que tinha que me dar mais 100. Após curta discussão ele deu-me os 100 e eu dei-lhe mais 10 para além dos 200. Ache que ele não pecebeu ou fez mal as contas. Fiquei nervosa com a discussão e entrei sala adentro, esquecendo-me de tirar os sapatos, ao qual fui chamada a atenção para os tirar por uma jmulher que fazia parte da comitiva. Pedi desculpa e assim fiz, ela mais tarde pediu desculp<a (tinha sido bem assertiva na comunicação, eu expliquei o que tinha sucedido, ao que ela respondeu que já lhe tinha acontecido o mesmo.

Vimos o ensaio de acertos e a seguir ele ofereceu um café com leite e umas bolachas. Como tinha dormido mal, quando percebi que era café e não chá, até pnsei que me ia acordar (eu tinha fechado um pouco os olhos e ela tinha reparado, pis quando me encaminhou para o chá disse que eu estava um pouco com sono, e de facto eu tinha fechado os oulhos ao escutar o ensaio.
Seguidamente, o Riky, o Miguel e eu almoçámos perto, eu comi aloo (batata com molho e especiarias e uns croquetes de peixe que estavam muito bons. Sumo de manga a partir de concentrado, (não é a época) e água. Nada de especial, a não ser os croquetes, mas ficámos bem.

Ensaiámos a seguir em casa do Riky com o Stephen, acertámos coisas e foi bom. Deliciei-me a seguir com oaoaia e diospiro (não tenho comido muita fruta) e voltei para casa onde me esperavam aloo com legumes, dhal de lentilhas vermelhas, arroz branco e rosti (naan caseiro). Comemos o arroz com as mão, com o dhal que é bastante líquido por cima, enrolei o aloo no naan. Comer com as mãos não é novo para mim, faço-o mais no verão. A comida sabe de maneira diferente, há ligação maior com o resto do corpo e de certa forma também é sensual. Encomendaram um doce de cenoura com especiarias que é muito bom e uns rolinhos com açafrão de que também gostei muito. Os doces de Bengal são muito à base de leite, leite condensado e natas, e segundo a região podem ter mais ou menos açúcar. Aqui não são muito doces, o que é bom.
Fiquei com o Riky depois do ensaio para revermos umas coisas e a mãe ofereceu-me um arroz com legumes para eu levar para casa. Aqui, as pessoas oferecem a comida que têm a mais, nada se desperdiça. O marido da Malika diz que gosta de comer restos. Creio que é reflexo de uma cultura onde existe muita pobreza, a comida é vista como algo a não desperdiçar.
Dia 7

Tinha o dia livre. Fui comprar especiarias, mas é tudo empacotado. Comprei coentros moídos e garam masala.Para ir ao mercado de especiarias tem de se ir ao New Market. A Malika não me aconselhou a lá ir. Hoje em dia tem predominantemente musulmanos com quem tem de se negociar, e diz também que não me iriam largar, mal vissem a cor da minha pele. O Stephen disse que era como um Souk. Comi o arroz da mãe do Riky ao almoço e ao fim da tarde fui ver um concerto na Academia, onde iria atuar a aluna mais jovem da Shubra e um violinista, acompanhados por professores da casa.

Foi uma experiência incrível. Nem sei como me atrevo a dizer que canto música indiana. Aquela jovem tem um domínio técnico do meio da voz e dos graves como nunca vi ao vivo. O mais interessante é que ela tem um timbre parecido com o meu epor isso dou valor, pois sei o quanto é difícil cantar nessa zona da voz, sobretudo quando se tem uma voz aguda. Ela cantou durante uma hora, o que é muito, para um tipo de canto como este. Só havia uma nota mal colocada na voz, que percebi pelo cansaço, mas só especificamente naquela nota.Eu estava em êxtase. No fim fui dar-lhe os parabéns.

Tinhamo-nos cruzado no dia anterior mas não tínhamos tido a oportunidade de falar. Ela estava na entrada antes do início do concerto e falámos um pouco. Para mim foi uma honra ouvi-la e perceber uma série de coisas que me podem vir a ajudar na interpretação. Pedi-lhe o contacto, perguntando se poderia ter acesso a vídeos dela a cantar, pois era uma inspiração vê-la. Ela ficou contente e admirada pela minha expressão (eu emocionei-me um pouco ao falar com ela). O que notei neste dois alunos (o violinista não era menos do que virtuoso) foi uma grande humildade, a base sem dúvida para melhorar sempre a performance. Ela disse que nos voltaríamos a ver na academia. O mais engraçado a voz falada dela está num registo muito mais agudo do que aquele em que canta. Fez-me lembrar a minha voz antes de ter aprendido a técnica Linklater de voz falada, altura em que a minha voz falada passou a estar no meu registo médio.

Voltei para casa e comi um arroz pulau oferecido por uma amiga da Malika.
Há algo de muito interessante entre a minha anfitriã e eu. Desde o início sentimos uma grande afinidade entre as duas, e tendemos a vestir as mesmas cores sem dar por isso. Quando penso que quase fiquei hospedada noutro lugar... Um dia ela magoou-se no joelho de manhã, uma pancada forte, mais tarde, tropecei e esfolei ligeiramente o joelho. Esta manhã ela engasgou-se e eu disse-lhe para baixar a cabeça, conselho de uma terapeuta da fala, e passou logo. Bem... eu durante a noite vomitei o jantar em duas vezes.Trouxe o Elgypur (grata, Teresa R.!) Eu sabia que a minha vesícula ía dar sinal e tenho tomado, mais a argila em pó e o ultra-levure que o Reinhard me deu (grata!).
Dia 8
Acordei tarde. Tinha tido dificuldade ao adormecer (beber tchai a partir das 6 da tarde, é o que dá), e estava ainda mal-disposta e fraca. Contactei a Malika, que me ajudou. Comi banana e aveia mais tarde, mas não consegui comer mais nada. Fiquei deitada praticamente o dia todo. Na noite seguinte saiu o pequeno almoço que tinha tomado e comecei a sentir-me melhor. A dor de cabeça foi passando à medida que ia bebendo água durante a noite, sempre que acordava. E fiquei melhor.

Tinha mudado de quarto no dia anterior a ter estado doente. Os colchões são finos e bastante duros. Tenho de fazer alguns exercícios de técnica Alexander para não ter dores de costas e por consequência dificuldades em respirar completamente quando estou a cantar. Tenho um belo verde numa parede, cor óptima para cura em colorterapia (olhar para ela e inspirá-la de algum modo também me relaxava) e a cabeça agora estava a sul, direção mais propícia para mim para descansar e ficar boa segundo o Ki das 9 estrelas, para quem percebe.
Aprofundando
Dia 9
Acordei aliviada e mais bem-disposta. Comi uma banana de manhã, outra a meio da manhã, e um pouco de sumo e almocei aveia. A seguir ao almoço vi que não tinha reparado que tínhamos ensaio em casa do Tarun. Apanhei um Uber e lá fui eu. Foi um ensaio estranho, estávamos ainda a acertar e a habituar-nos a tocar juntos outros ragas, mas esta é uma fase necessária e faz parte.
À noite comi um arroz com côco, mais um presente de uma outra amiga da Malika. Comi pouco e deixei um pouco, comecei a sentir um ligeiro enjôo. Deixei passar um tempo antes de me deitar e quando o fiz tive de me levantar outra vez. Acho que o problema é a quantidade de comida, mas mesmo tendo comido menos, o facto de não ter feito completamente a digestão também não ajuda. Daí as tonturas de manhã em cada da Ongira e este incidente último. Além da comida ter gorduras diferentes da que normalmente uso, o nosso bom azeite. Foi bom ter percebido isso.
Fui estudar o raga que tínhamos visto à tarde e deitei-me. Custou adormecer, a música dá espertina, é o que é..
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Dia 10
De manhã, enquanto me preparava, ouvia mais uma vez a Malika a cantar em sânscrito versos do Gita. Também a tinha escutado a orar quando estive doente

Hoje fomos a casa de uma amiga idosa da Malika que sabia bastante sobre ragas. Tinha frequentado a academia e conhecia a Shubra, a Moupali e falou-me de outros. Falou-me de Goa por causa dos portugueses, e disse-lhe que o meu bisavô era de Goa. Ela percebeu então a minha conexão com a Índia e a música indiana. Pediu-me para cantar. Escolhi uma das composições que tenho estado a trabalhar, sem pôr a tala (o ciclo de tempo que organiza a música com o tabla, um instrumento de percussão), porque preciso de a trabalhar melhor e também traduzi a composição. Durante a conversa descobrimos que a palavra janela em bengal, janala, que quase já ninguém usa, dizendo-a em inglês, é bastante semelhante à nossa. E mesa, que também já não se usa, é mése. E Beringel para beringela. Andámos por ruas com algumas árvores, há muito pouco verde em Kolkata. A pouca vegetação que existe, e há alguns pequenos parques, está coberta de pó e de poluição. Temos que estar sempre a lavar as mãos, mesmo dentro de casa, vão ficando sujas...

Almocei um arroz branco com um guizado que tinha bananas, estava muito bom, mais o dhal. À tarde fizémos um ensaio aqui na casa, escolhi a varanda do novo quarto, que tem uma vista bonita, mas mesmo para cantar, sentir a poluição de vez em quando é terrível. Havia um pássaro a fazer o som que faço na canção que tinha cantado de manhã enquanto tocávamos (trrr, trrr, trrr), mas aos poucos começou a ouvir-se sons de obrar, muito barulho, para um sábado. Aqui não há muita diferença entre os dias da semana e o fim de semana, há menos circulação, mas mesmo assim é intensa.

À noite fui jantar com o Riky, o Tarun e o Miguel a um restaurante de comida bengal. Comi dois tipos de peixe, um frito e outro em folha de banana, envolvido em rábano moído e sabia ao mesmo que wasabi. Dhal de feijão muung e ervilhas, arroz branco e aloo foi o que comi em pequenas porções. Havia pão roti, e um outro, frito e inflado.

Bebemos lassi de manga, e cá sabe mais a iogurte do que a manga, a côr é de um amarelo clarinho. Os meus colegas também comeram borrego. Às tantas a mistura de sabores ficou muito intensa com as lentilhas e a batata um pouco picantes e o rábano. Pedi outro lassi, mas já não faziam, a cozinha tinha fechado. Perguntaram se gelado servia e foi o que comi.

Entretanto o Riky comeu sem saber uma grande malagueta e ficou muito aflito. Valeu-lhe o gelado! Acabámos por o partilhar e saímos satisfeitos com uma refeição, apesar de tudo, excecionalmente saborosa.
Começo a perceber que devo não só jantar mais cedo ou apenas lanchar, mas que também o facto da comida ser tão diversa numa refeição, as misturas são o que me torna a digestão lenta. Agora só como arroz branco, dhal e legumes ao almoço, aveia de manhã e algo leve ao final da tarde, se possível.

Aqui não comi com as mãos, como tenho feito em casa dos meus anfitriões. Pedimos talheres e vieram num recipiente em metal que parecia saído do Ikea. Outra coisa que reparo aqui, para além da poluição inacreditável e de um céu branco ou com fumo que faz da nossa poluição um bébé de colo, é a quantidade de plástico utilizado nos materiais. Até nos tapetes e nos guardanapos há mistura de plástico. O tapete brilha e os guardanapos têm uma consistência estranha.

Dia 11
Hoje acordei cedo. Quis tomar duche e desta vez a torneira da água quente estava empenada. Ainda não tinha conseguido tomar um duche quente por não perceber que tinha de ligar o cilindro. Enviei mensagem e a Malika apareceu mais tarde para me ajudar. E não conseguíamos rodar a torneira. Fomos ver noutra casa de banho e os furos do duche estavam entupidos, mas funcionava com uma leve corrente. Lembrei-me de pegar numa toalha e de tentar rodar de novo, pois já a tinha rodado noutro dia e consegui! Já tinha lavado o cabelo com água fria.. noutra altura... Pus-me de costas ao sol para o secar, estava um calor agradável. Aqui as temperaturas mais altas (hoje estiveram 26 graus) parecem menos quentes. Não sei se da humidade ou da poluição, mas é diferente.

Estudei depois de tomar o pequeno-almoço, na varanda. A segui ao almoço fui ter com o Riky e o Stephen para ensaiar em casa da Shubra e voltei. Consegui comer às 19 h graças ao cuidado da Malika, um caldo de beterraba e tomate e um panini le legumes que a Dhruvi comprou para mim. Mais um doce leve e minúsculo com pouco açucar, e assim foi o meu jantar mais leve.
Estamos a entrar em periodo mais intenso em termos de estudo e ensaios. O Stephen não vai estar disponível até 4ª, dia em que vai tocar como convidado da academia. Amanhã vou ter uma aula de tala com o Tarun, dar um jeito nas costas do Miguel que também sofre com a dureza do colchão, e vou ensaiar com o Riky em casa dele.
Dia 12
Hoje fiz o meu pequeno-almoço para poder sair or volta das nove para a aula de tala em casa do Tarun. Estavam todoa a dormir ainda. Fiz torradas, bebi sumo e levei uma banana para comer mais tarde. Quando quis sair tinha a passagem para o andar de baixo vedada (com portas de correr em ferro) e tive de acordar a Dhruvi para me abrir as portas. A Malika partiu ontem em viagem de trabalho e só volta na manhã de quinta-feira. Faz as viagens durante a noite, no comboio, e chega de manhã. Parece ser prática comum viajar de noite e dormir no combóio.
Chamei o Uber e já sei que àquela hora, se dermos uma nota de 500 rupias (5€) eles dizem que não têm troco. Combinei com o Miguel ele ir ter comigo se isso acontecesse para ter dinheiro trocado. Como é de praxe, no momento de pagar ele disse que não tinha troco. Eu disse-lhe que ia enviar uma mensagem ao meu amigo. Logo a seguir disse que afinal tinha troco. E eu estava a querer troco com gorgeta. Aqui dou gorjetas de 20, 30 rupias (20, 30 cêntimos) no máximo, dependendo do valor da viagem e dos trocos.Devo dizer que me sabe bem poder fazê-lo pois os carros são pertencem a alguém que os subcontrata, o que faz com que ganhem ainda menos do que o que já é pouco. Sinto que estou a contribuir para um dia melhor para eles.
Esta questão do dinheiro é uma questão que nos toca a todos. Hoje foi lua nova (na europa foi ontem) e há uma conjunção Plutão-Vénus. No sentido material Plutão é o dinheiro dos outros (entre muitas outras coisas, mas só para este parágrafo vamos pôr assim) e Vénus representa o dinheiro, e também o amor. Um astrólogo de quem gosto muito diz que o dinheiro é a forma mais densa do amor, conceito que pode ter um lado interessante, pois valorizar, dar valor também pode ser visto como uma forma de amar, conceito mais ligado ao que é normalmente visto como amor. Então há algo assim no ar, um amor que oferece algo ao outro para que pelo menos esse dia haja uma bênção material. Começo a perceber que há algo na pobreza que aqui vejo que pode estar ligada à minha linhagem familiar feminina, ou seja, à minha mãe e à minha avó materna. Será que quando o meu bisavô foi, em fins do século 19 para Portugal o fez por questões de sobrevivência? Como seria a vida nessa altura em Goa, na Índia? Certamente que muito pior do que agora...
Então sinto como que um resgate e um querer libertar-me desta herança, para que terminando comigo os meus filhos também possam vir a usufruir dessa libertação. É aceitar a pobreza, aceitar a abundância, aceitar o que tenham feito na minha linhagem lá para trás, o bom e o mau, para perdoar, libertar, para acabar, fechar esse ciclo.

É desapegar-me. Tive uma situção que só partilho porque acho importante. Quando mudei de quarto pedi ajuda à pessoa que limpa os quartos, mas uma senhora que há 40 anos trabalha nesta casa, e que limpa as escadas. Ela não quis que eu fizasse nada e pegou nos cobertores e lençóis, mudando-os de quarto. Quando voltou, sorriu, ela, que parece sisuda. Comecei a arrumar tudo e a transportar as coisas de um quarto para o outro e dei conta que um fio com im pendente de prata em geometria sagrada de que gosto muito tinha desaparecido. Procurei tudo, e nada. Tentei lembrar-me onde o tinha posto pela ultima vez e percebi o que tinha acontecido. Comecei a tentar perceber o que representavam aquele fio e o pendente. Já há uns meses o tinha deixado algures, tendo levado meses para o recuperar. O fio foi-me dado por uma pessoa há 40 anos, alguém que nunca mais vi. O pendente, foi um presente de uma amiga que se zangou comigo. Percebi que tinha de deixar ir, essas pessoas estão ligadas a memórias que já não servem e das quais já me libertei, e sei onde comprar o pendente se algum dia quiser outro igual...

Quando voltei a ver a mulher vi receio no seu olhar, mas não disse nada, cumprimentei-a, e continuei a comer. Se for algo que lhe traga algum conforto, óptimo. Do karma não se vai livrar, mas ao menos vai com a minha bênção. Eu estou a pôr isto aqui porque apesar de estar a passar algumas dificuldades neste momento, tive a bênção desta viagem com tudo o que acarreta, e tudo o que possuo é muito mais do que a maioria das pessoas deste país alguma vez irá ter, e é bom ter essa noção. Ao lado delas, sou riquíssima.
A aula com o Tarun correu bem, deu para perceber o que é necessário trabalhar e acertar, o nosso concerto é no próximo domingo. Almocei lá e fui ensaiar a casa do Riky. Devo confessar que estou a ficar cansada de andar de Uber de um lado para o outro, mas é assim...
Fiquei bastante cansada, e fui descansar quando voltei, eram já 4 da tarde. Decidi retomar o estudo amanhã e fui fazer tricô e ver o que o meu astrólogo favorito diz sobre esta lua nova, e a mensagem é: “Já não interessa mais pensarmos no nosso conforto, o importante é o que podemos fazer pelo colectivo. O mundo está a mudar, e quanto mais pensarmos em nós mais medo vamos ter da mudança. Melhorar o que está à nossa volta, contribuir para o seu benefício nem que seja com 0,5% no que fazemos diariamente pode fazer a diferença para um mundo melhor e para o nosso crescimento interior.” (Yann Loranger, não é uma citação, mas uma tentativa de síntese do que ouvi).
Dia 13

Hoje o dia foi consagrado ao estudo das composições, sozinha. Estudava, e quando me sentia cansada, deitava-me um pouco. Por vezes fico com a cabeça em água. Dou-me conta que estamos a fazer coisas difíceis, pois é música indiana mas composta por um músico ocidental que brica com o ritmo, as palavras e os diálogos entre instrumentos em lugares da tala por vezes inusitados. O todo solicita uma grande atenção e foco, que é uma das coisas que sinto aqui nas pessoas e que quero levar em termos mais ativos em mim. Estar alerta e calma ao mesmo tempo. Tenho tendência para fechar os olhos quando canto este tipo de música e não quero mais fazê-lo, tenho de estar mais atenta aos outros membros do grupo em vez de estar mais no sentir interior. Tentar equilibrar os dois e permanecer com os olhos abertos...
Foi também dia de lavar roupa no lavatório. A roupa fica rapidamente com pó, e saiu muita água castanha. Secou ao longo do dia, mas não sinto os 28 graus, estão filtrados pela humidade e não sei que mais. Não há máquina de lavar em casa, há lavandarias na rua. Não sei se é regra geral. Aqui o quarto é varrido e lavado todos os dias, mas apenas com água, não se usa detergente. Hoje vi uma publicidade indiana no Youtube sobre casas. Lindas, mas não vi uma única banheira ou poliban. É mesmo assim, duche diretamente para o chão, e uma abertura por onde escorre. Engraçado... Suponho que seja diferente nos hotéis.

As luzes dentro de casa também são horrivelmente intensas, ao fim de algumas horas começo a ficar com uma ligeira dor de cabeça. Começo a pensar que é essa sobrestimulação que me impede de adormecer rapidamente. Hoje vou tomar duche à noite, a ver se ajuda.
Dia 14
Iniciei o dia com alguns exercícios de Tai Chi para dar fluxo aos músculos e articulações. Creio que vão passar a fazer parte da minha rotina da manhã, juntamente com o movimento livre improvisado que utilizo no trabalho de voz. Passei a manhã a estudar e cada vez mais tenho consciência da responsabilidade que tenho dentro do grupo.
Fiz uma pausa antes do almoço e resolvi sair um pouco, procurar um ou outro lugar que queria ver. Foi a segunda vez que fiz algumas compras da pequena lista que fui elaborando. Incenso, chá Tulsi e umas leggings para condizer com uma túnica que estou a fazer para primavera outono. Só aqui há tanta cor que consegui encontar o azul que procurava.
Voltei para almoçar e estudei mais um pouco. Ao final do dia tinha o concerto do Stephen. Dirigi-me para a academia, no meio de um caos ainda maior naquela zona devido aos preparativos para a celebração da Pooja da deusa Sarawasvati, deusa da sabedoria, da música e das artes e da aprendizagem, na 6ª feira. Em afinidade com a nossa estadia. Há uma atmosfera ainda mais elétrica que o costume, mais travagens, buzinadelas e protestos entre condutores.
Entrei na academia. O Riky e o Miguel já tinham chegado. O Stephen apresentou-me à Rita Roy, que ele conheceu em 2012. A Rita foi professora de português durante muitos anos, creio que agora é tradutora. É indiana. Fiquei sentada ao lado dela durante o concerto, que correu lindamente. Senti o privilégio de conhecer duas das composições, cantando-as para dentro, enquanto o violino tocava e improvisava. E vou-me dando conta do privilégio que tenho em ser aluna do Stephen. Este homem vai fazer história na música hindustani do norte da Índia. A maneira como ele compõe e improvisa é inovadora na música indiana. O facto de ser um músico ocidental permite-lhe fazer experiências ao nível do encaixe do ritmo e dos tempos, assim como ao nível da linha melódica e da improvisação. É difícil, mas o resultado é muito bem acolhido pelo público.

Ele tocou acústicamente, isto é, sem amplificação, e foi lindo, pois há subtilezas que numa amplificação não permitem o desenvolvimento desse tipo de escuta. Os alaap (introdução do raga, sem percussão), foi de grande beleza e sensibilidade, é interessante como o violino tantas vezes parece uma voz humana. O restante foi do domínio por vezes virtuoso, desafiante no sentido da dificuldade e da rapidez, da resposta e do diálogo com o percucionista. Tenho pena que em Portugal ainda não façamos muitos concertos, ao ver o que se faz aqui, somos realmente ocidentais a dar um cunho bastante interessante a este tipo de música, pois há bastante mais contraste do que tenho visto aqui, e isso cria uma dinâmica diferente mais adequada à sensibilidade ocidental, digamos assim.

E falando do Stephen meu professor há cerca de 11 anos, também sinto necessidade de falar do meu amigo e colega Ricardo Passos, com quem tenho vindo a trocar aulas de canto Dhrupad, a forma de canto mais antiga da Índia (onde ele o aprendeu) por aulas de técnica vocal. Tem sido uma troca e aprendizagem muito interessantes, pois viemos de lugares opostos, em termos da colocação de voz, e eu fico feliz em perceber que a minha voz pode ir ainda mais longe e desbravar caminhos emocionalmente bloqueados nas zonas média/grave, e ele nas zonas média/aguda. O Ricardo também é multi instrumentista, além de tocar percussão como eu raramente vi (aprendeu com um guru em África), toca vários instrumentos, e toca mais que um ao mesmo tempo, cantando .
Sou a responsável por ter provocado o encontro entre os dois. O Ricardo colabora connosco quando possível, e acredito que duas pessoas tão diferentes podem realizar uma colaboração que tem bons resultados.
Eu sinto-me mesmo muito honrada por ter estes dois músicos na minha vida musical, e creio que com Saturno (que representa a estrutura entre muitas outras coisas) e Neptuno (que representa também entre outras a música) ao entrarem de mão dada no signo de Carneiro no próximo mês vai ser ativada para a humanidade uma nova dimensão da prática musical. Como se (e já se começa a ver isso) uma restruturação, renovação e inovação ao nível musical (e também de outras artes) recebesse um novo impulso. Vamos ver o que acontece no domínio artístico nos próximos anos...
Voltei a casa, jantei e tomei um duche para limpar o excesso de carga electromagnética presente nesta cidade. A pressão na cabeça e nos ombros aliviou bastante. Foi um dia rico e intenso, estou muito contente!
Dia 15
Dia de ensaio de manhã, às dez e meia, em casa do Tarun. Sair às nove e meia de casa é cedo para a família, o pequeno-almoço é tomado às 10, 10:30. O ensaio correu bastante bem. O Stephen ficou muito contente com o que fizémos na sua ausência, em conjunto e em separado.
A seguir fomos almoçar com a Rita no Calcutta South Indian Club.

Encontra-se numa zona residencial que há dez anos para cá tem comércio, é uma zona muito aprazível, senti-me muito bem lá. Um ambiente mais europeu, talvez, com pessoas que poderíamos encontrar em qualquer zona do ocidente. Bebi um mojito sem álcool que mais parecia Sprite, comemos tiras grossas de courgette envoltas em polme estaladiço com um pó com especiarias e eu comi Fish and chips na versão indiana. Foi o dia da asneira... Terminei com um Brownie e gelado.
Comer todos os dias indiano é um pouco forte, e quis variar, embora não da melhor maneira, mas soube-me bem e quando comecei a sentir que ia ficar enjoada com tanto frito, parei. O gelado ajudou a digerir, para mim, funciona.
Conversámos muito, a Rita é uma pessoa muito interessante, com contactos com escritores e intelectuais portugueses. Já esteve muitas vezes em Portugal, mas sempre que tentou ir a Goa aconteceu algo que a impediu de ir. Ao ver a veemência com que falou do facto dos portugueses terem erradicado praticamente a língua que os nativos de Goa falavam, substituindo-a pelo português, ao contrário dos ingleses, que deixaram a(s) línguas nativas permanecerem percebi a contradição do facto dela considerar que Goa pouco tinha de Portugal do seu ponto de vista. Há um ressentimento contra o que fizémos.

A Rita é indiana, e interessando-se por línguas europeias acabou por aprender português com alguém que dava aulas gratuitamente, creio que a esposa de um embaixador, alguém assim. Como é que, se há esse ressentimento contra o que lá fizémos no passado, ela vai, falando a nossa língua, e tendo ido a Portugal tantas vezes, a Goa? Há como que um curto-circuito. Uma parte quer ir e gosta de Portugal e da língua, e a outra recusa o que os portugueses lá fizeram ao impôr a língua portuguesa em detrimento da nativa. É claro que uma coisa parece estar a anular a outra, criando um impedimento. É interessante como as realidades e contradições internas se podem projetar no exterior.

A seguir ao almoço (estivemos lá várias horas) foi comigo para eu comprar um top para o sari que irei usar no concerto. A Malika vai emprestar-me um dela, muito apropriado, mas precisava da parte de cima. Encontrei um em algodão preto, uma das cores do sari. Era uma loja só de tops. Vi vários saris em lojas, com cores incríveis. Sempre soube que a minha paixão pela cor vem do meu lado indiano.
Gostei muito daquela zona, Gariahat. Sei que hei-de lá voltar. Fui a uma outra loja, mais de tipo ocidental, onde havia roupa para homem e mulher, e muitos outros artigos de oferta tipo chás e incensos. Vi o top ideal para o sari, preto, com bordados em dourado, parecidos com os do sari. Experimentei-o e ficava bem, mas custava 10 vezes mais, sendo em seda e algodão, e eu tinha comprado um em algodão. Mas decidi não comprar e fiz bem, pois a Malika quer dar-me um dos saris dela (diz que tem muitos) mas este não está contemplado. Tudo certo. A roupa aqui serve-me à primeira, e isso sabe bem. Quando voltei a casa experimentei o top que tinha encontrado e servia na perfeição, eu só tinha pegado na largura e posto debaixo dos braços para perceber se dava. E deu!
Voltei a casa, não jantei. Estudei um pouco, tomei duche e fui deitar-me. Foi um dia longo, mas bom.
Dia 16

Hoje foi feriado. Foi o dia da Deusa Saraswati. Trouxe na minha bagagem roupa amarela: uma túnica, uma saia, e um xaile/capa. Esta é a cor que se usa no festival, é a cor de Saraswati e da Primavera. Vesti a saia amarela, uma camisola bordeaux e pus a capa/xaile. Apanhei um Uber. Desta vez, o condutor ia mesmo muito rápido. Ao ritmo de canções sul-americanas. E de outras, tipo Bollywood. Até pareciam sul-americanas, mas cantadas em hindi. Ou em Bengal.
Ensaiámos de manhã em casa do Tarun e fomos acertando coisas. Fomos almoçar no bairro onde mora o Tarun, com muitas outras pessoas, comemorando este dia. O almoço estava uma delícia.

Aquele pão frito que fica inflado, paparis, lentilhas amarelas, aloo com legumes e beringelas fritas em polme, como os peixinhos da horta, herança culinária portuguesa. E um arroz com lentilhas pequeninas vermelhas, Delicioso. Uma pequena sobremesa com uma calda de fruta, umas bagas. Tinham montado um altar com a figura da deusa e muitas cadeiras. As mulheres estavam num lado, os homens noutro, mas depois misturaram-se.

Conversámos com algumas pessoas, sobre música e musicoterapia. Cada vez que dizemos que somos portugueses, numa grande percentagem alguém diz: Ronaldo! A Rita tinha vindo ter connosco para ver o ensaio. pois não vai poder estar presente no concerto.
Depois do almoço, fizemos uma pequena sesta, para voltarmos a ensaiar em seguida. É bastante intenso. Agora, temos de memorizar as entradas, os tempos, as improvisações, a tala. Consigo, no entanto, manter a calma. Mesmo que me perca na tala, o que é normal acontecer, volto a encontrá-la. E está tudo bem.

Voltei para casa, e passei uma boa hora com a Malika e depois sozinha, a perceber e a ensaiar como se veste um sari. Depois, também vi uns vídeos no YouTube, para perceber. O que eu nunca tinha percebido é que é preciso um saiote que fica bem apertado e no qual que o sari (diz-se chari) se vai prender. É engraçada, toda a cerimónia no vestir, o uso de peças de roupa como já não se já não se usam no Ocidente. Quando os meus filhos viram a fotografia acharam que havia algo de grego na indumentária. O que até se percebe. Nos enfeites, nas joias, na roupa, existe realmente uma cultura da beleza no seu expoente máximo. Existem inúmeros anúncios de joalharias. Existem muitos cartazes na rua, a dizer para se comprar ouro, investir em ouro. As joias são enormes, em ouro e com diamantes e pedras preciosas, numa quantidade infinitamente maior do que qualquer mulher ocidental usaria, mais até que uma princesa ou rainha. É realmente um país de grandes contrastes.
Amanhã vamos apanhar o comboio para a Santineketan, onde vamos fazer concerto no domingo de manhã, e vamos rever as composições durante a viagem. Sempre a ensaiar, memorizar, integrar. Ufa!
Dia 17
Hoje, a novidade foi a chegada a Shantinekatan, a cidade de Tagore. Tinha cinco casas, aqui, disse a Sabina, uma cantora, aluna da Shubra, que também veio para cantar neste evento. É uma cidade pequena, com muitas árvores, pouco trânsito, ruas mais estreitas que as de Kolkata, e casas belíssimas.
A viagem de comboio durou cerca de hora e meia. Estar no combóio é uma festa: o senhor das batatas Lays, dos frutos secos e dos Snikers, o senhor do iogurte em creme de custarda, o do chá e café. As nossas companheiras de viagem, cantoras, foram nos oferecendo, perguntando se queríamos. Fiquei com o iogurte e frutos secos. A água engarrafada é oferecida pela companhia dos combóios. Aqui, a água engarrafada é sobretudo filtrada e aditivada com magnésio e cálcio, pelo menos as que tenho bebido, fora a água filtrada que há em casa das pessoas.

Estamos num Resort de luxo, de uma grande beleza. Tudo foi pensado no mínimo detalhe. Desde a concepção das casas, realizada pelo nosso anfitrião, que não é arquitecto, com grandes espaços comuns onde vemos obras de arte, livros, lugares aprazíveis onde dá vontade de ficar sentado, olhar para o verde lá fora, enquanto se bebe um chá ou se lê um livro. Tem um pequeno restaurante onde comemos algo quando chegámos, havia umas mini sanduíches, chamuças com recheio de batata e amendoins estaladiços, e batatas fritas, que não comi. À chegada, ofereceram-nos uma bebida que ao inspirar me deu vontade de tussir. Era um sumo que devia ter pimenta e uma erva amarga tipo artemísia fresca ou absinto, e lima, parecia cheirar a esgoto, era estranha. Isolei o olfacto e fui bebendo, assim dava para beber. Mesmo assim vinham piquinhos ao nariz.
Fui a útima a ter quarto atribuído, a Sabina tinha dito que não traria o filho, mas acabou por o trazer. Eu ia ficar com ela, mas assim já não deu. Pensei que seria pelo melhor, que está tudo certo.
Quando me trouxeram ao quarto vi um espaço muito bonito, ocidentalizado, mas com o toque indiano, e tem um duche como conhecemos. Há neste quarto uma multitude de espaços diferentes: além da cama e da casa de banho tem uma área de secretária, um sofá, uma poltrona perto da janela e uma pequena mesa redonda com duas cadeiras. Tem muita arrumação, também. Frigorífico e zona de cafetaria, com um aquecedor de água muito bonito. E um termoventilador. Lá fora, há uma piscina, e atrás, um palco onde vai decorrer o concerto de hoje. Nós vamos fazer o nosso dentro de paredes, e, esperamos, sem microfones.
O concerto foi lindo e inspirador, as duas cantoras, irmãs no canto, como dizem, fazem uma dupla vocalmente harmoniosa. São cantoras que se apresentam em eventos importantes, na televisão, e já ganharam concursos, na juventude. Estão com grandes expectativas em relação à minha voz, pelo que a Shubra lhes contou. Eu estou mais preocupada em cantar este género o melhor que conseguir, não é a voz que me preocupa, mas sim os ragas. Enfim, veremos.
Mas há algo nos cantores que tenho ouvido, homens e mulheres, que me perturba. Há uma zona da voz onde em vez de usar a ressonância na zona nasal combinada com voz de cabeça, ou seja, misturando zona média e aguda para obter um efeito equilibrado, optam sempre por fazer tudo de garganta, o que faz com que, se não forem vocalmente resistentes, ficam com problemas de voz, segundo dizem que por vezes acontece, e alguns deixam mesmo de cantar, quando é algo que pode ser prevenido. Não existe uma colocação de cabeça neste tipo de música, e é por isso que a minha voz atrai tanto, pois com a voz de cabeça passa a existir uma dimensão da voz mais etérea, neste caso, de um soprano ligeiro, e isso é novidade para eles. No entanto todos estes cantores usam essa zona de mistura para cantar coisas muito mais difíceis e virtuosas, e é isso que me confunde. Porque não o fazem para aquela zona onde forçam?
Apesar disso, adorei o concerto, as vozes e as qualidades de interpretação e musicalidade. Foi o exímio Tarun que as acompanhou nos tabla, já as conhece há 20 anos, desde que eram alunas da Shubra.
Fui felicitá-las. Passavam pouco das nove e encaminharam-nos para ir jantar, mas eu não quis comer mais...
Dia 18
Acordei às cinco da manhã e não consegui dormir mais, só pensava em tala e numa ou outra composição. Acabei por me levantar e estudar um pouco mais, ver os tempos das entradas, das improvisações. É claro que senti o peso da responsabilidade do concerto de hoje. Quando quis secar o cabelo o secador não funcionava. Após várias tentativas percebi que a ficha estava mal encaixada na tomada. Quando quis ir tomar o pequeno-almoço não encontrava a chave do quarto. Acabei por encontrar. Pus uma mistura de óleos no pescoço e nos pulsos para acalmar.
Ontem não tínhamos tido tempo para ensaiar e íamos fazê-lo hoje às nove e quinze. Depois do pequeno almoço (onde a torradeira enpenou assim que pus o pão) vim ao quarto, e quando quis ir ter ao lugar onde íamos ensaiar e ter o concerto, a sala ao pé da recepção, eu não conseguia encontrar o caminho para lá. Senti-me desconfortável no ensaio, mas o Stephen disse que estava a correr bem O facto é que na música indiana, em termos de improvisação, tudo o que acontece faz parte. Os “acidentes” como entradas desfazadas, a espera para se perceber onde em que tempo está a tala para entrar, dá espaço e é aceite. Até o pigarro dos cantores, as combinações que se fazem no momento, tem algo de integração da música na vida diária. Quando se está a ver um concerto o público bate os tempos fortes da tala, seguindo assim a música. E eu sabia que por vezes me perco, mas também me encontro. Ainda vim ao quarto antes do concerto, que estava marcado para as onze e meia. Concentrei-me e liguei-me a algo maior para me desligar do nervosismo.
Mais calma, desci. O concerto começou com a explicação e tradução dos textos que iam ser ditos. Eu já tinha feito o ensaio sem os apontamentos da estrutura de cada raga, porque não era suposto estarmos a seguir uma partitura. O concerto correu bastante bem, conseguimos gerir o que ia acontecendo. Este aspecto de improvisação que é semi-preparada por vezes leva-nos a criar coisas novas no momento, o que acaba por nos surpreender. Depois um de nós pode esquecer uma fase da sequência, que é saltada, e gerimos, continuando. Com o violino por exemplo, as mãos podem começar a transpirar e a dedilhação ou o deslizar do arco podem fazer com que o dominio do instrumento seja afectado. O mesmo pode acontecer com a voz, no meu caso o excesso de secura provocada normalmente pelo nervosismo, acentuado aqui pelo clima, também provoca alterações na emissão vocal. É uma grande aprendizagem de desapego, e de fluir com o que é possível no momento, e aí podem acontecer também as boas surpresas, a voz quer ir por outro caminho e cria outra sequência de notas improvisadas na altura.
O público ia reagindo no final de cada composição, extremamente aberto, disponível e benevolente, exclamando com prazer e aplaudindo. A verdade é que todos os lugares foram praticamente ocupados, talvez fossem umas trinta pessoas. A última composição era em hindi, sobre uma mulher que se queixava da sua vida desperdiçada porque o marido ia ter com outra mulher, “estás é a dar-me cantigas”, e “balelas!”, são expressões que encontrei como equivalentes à tradução do inglês, mas que a sonoridade e expressão em hindi me inspiraram. Tem um tempo bastante rápido, e é exigente, pois como a mulher está zangada, é desafiante não fazer tensão na voz ao cantar. Terminei com o Tihai (uma frase ou fragmento do texto repetido 3 vezes, mas em cujo último tempo forte a percussão desaparece) e a última palavra foi expressa em voz falada com grande acentuação para evitar uma nota mais grave que percebi que não ia ser ouvida. O que aconteceu foi uma grande aclamação no final, com a Sabina a dizer que tinha bem expressado a raiva.
O público gostou mesmo muito. Como já disse acima, o que fazemos é novo para eles, mas ao mesmo tempo familiar , é só a forma dentro da estrutura que é diferente. De resto, tem tudo o que um raga deve ter. No final, a Shubra teceu elogios, valorizando o facto de um grupo como nós, em Portugal, está a fazer algo tão difícil como é a música indiana e ainda cria algo de novo.
Para mim, é importante perceber qual é o próximo passo para melhorar o meu estudo e aprendizagem e já vislumbro melhor um sistema para eu praticar, e vou dizendo ao Stephen o que preciso de fazer com ele nos próximos ensaios.
À tarde fomos visitar o museu de Tagore, fiquei a saber mais sobre este poeta, músico, pensador e tantas outras coisas, que conseguiu dar à Índia e à humanidade algo que lhe permitisse inspirar-se e crescer interiormente, avançando ao longo dos tempos. Ele faz-me lembrar Nicholas Roerich, também artista, filósofo e educador, que com a sua mulher criou escolas e institutos para promover a paz no mundo e a ligação entre todos os seres humanos através da arte.
À noite, escutámos a Elora, uma cantora do Bangladesh que veio para a Índia há dez anos e que agora reside nos Estados Unidos. A sua voz doce e suave cantou música hindustani com poemas e música de Tagore e de outros compositores e poetas. Cada canção soou-me a uma oração, foi lindo. Em determinados momentos exclamávamos pela beleza de uma intenção dada por determinada nota e sentimento. Elora é muçulmana e dá para perceber as origens da musicalidade com que impregna o que canta e sente. É uma sobrevivente de cancro na garganta, e continua a cantar...
No final a Shubra falou um pouco das ligações entre os vários tipos de música hindustani, e a Orpita, a anfitriã de Salmanji, o Resort onte estávamos. Ficou tão entusiasmada e alegre com o evento, que disse que se iria repetir todos os anos e que seríamos todos muito bem-vindos para participar.
Dia 19
No dia seguinte voltámos para Kolkata, novamente de combóio. Qualdo voltei a New Allipore, almocei e saí com a Malika, em busca de incenso e especiarias. Arranjei incenso e bom preço mas a canela, que queria comprar, não cheirava a nada. Então, deixei para outra altura. Também comprei umas calças leves, que assentam muito bem. Continuo espantada com o modo com que a roupa me assenta no corpo... É sempre desafiante atravessar a rua no meio do trênsito, com a Malika é mais fácil.
Passámos por uma pastelaria (aqui os doces não têm muito açúcar e a maior parte tem as dimensões de uma miniatura, ou petit-four; há muitas pessoas com diabetes), e escolhi um bolinho branco, com a forma de um croquete, era de arroz e leite, creio, com um pouco de açafrão. Comi os dois ao jantar, a pedido da Malika, pois comi apenas três torradas. Tinha almoçado tarde e passei a comer menos à noite para digerir melhor. Ao jantar esqueci-me de lhe devolver o sari, o saiote e o único alfinete que tinha para prender o sari e que me emprestara.
Fui entregá-los mais tarde, juntamente com a pequena mala que levara para Shantiniketan. Quando cheguei lá acima, estava a Viná, a mulher que ajudava na lide da casa. Não estava à espera que ela ali estivesse àquela hora. Hesitei em deixar as coisas mas não fazia sentido voltar para baixo com elas. Pousei o alfinete bem visível em cima do saiote e disse que era para a Malika, eu não sabia onde ela estava. Fui para baixo e enviei uma mensagem dizendo-lhe que tinha deixado a mala, o sari, o saiote e o alfinete d’ama à entrada da casa. Depois fui tomar duche e dormir, estava bastante cansada.
Dia 20
No dia seguinte esperava-me uma mensagem da Malika a perguntar pelo alfinete. Fiquei perturbada, eu não queria acreditar que aquela mulher tivesse de novo ficado com um objeto de metal. É engraçado como me senti responsável só por me ter atravessado esse pensamento, e agora tinha acontecido. Respondi que tinha a certeza que o tinha posto em cima do saiote. Eu só pensava até que ponto aquela infeliz era suficientemente tonta para repetir a proeza. Senti-me tremer de indignação pelo facto de o objeto ter estado sob a minha responsabilidade e aquilo ter acontecido.
Fui tomar o pequeno almoço. Ela estava lá, mas eu nem conseguia olhar para ela, disse-lhe apenas “bom dia”. Sentei-me, à espera do pequeno-almoço, tentando gerir o sentimento de indignação que me fazia sentir tonta. A Malika estava nos afazeres a refeição e demorou um pouco até eu conseguir perguntar se tinha encontrado o alfinete. Sim, a Viná tinha-o encontrado ao varrer a casa, ele tinha caído, disse. Quando ela me disse que tinha sido encontrado emocionei-me, ao soltar a tensão que trazia dentro de mim. Ela ficou aflita, eu expliquei que era bom, estava a libertar a preocupação por algo que estava sob a minha responsabilidade, e poucos minutos depois, já me sentia bem.
Eu tinha visto no dia anterior que a Viná tinha visto o alfinete. Pelo menos foi devolvido e ficou resolvido. A Malika já me tinha dito ter muita confiança em todas as pessoas que trabalham lá em casa. Como o Malika perguntou pelo alfinete, ele apareceu. Eu tinha dito à Malika que o meu fio tinha desaparecido, mas não perguntei a nenhuma das pessoas que lá trabalhavam. Perguntei-me se o devia ter feito, mas já me tinha conformado com o seu desaparecimento.
Dia 21
Aproveitei esse dia para descansar, a meio da tarde a Malika quis que eu visse uns vertidos que tinham pertencido a uma irmã dela e que estavam para dar. Estamos a falar de vestidos de cerimónia. Experimentei um azul marinho, com algum dourado, mas pouco e ele ficava mesmo bem, se bem que precisava de um ajustamento. Não tenho a certeza que o consiga vestil no ocidente, mas para um concerto aqui, creio que sim. Apesar de tudo, por ser escuro, tem alguma sobriedade. E uma kurta comprida em seda selvagem verde azeitona sombreada a violeta/beringela escura, que assentou perfeitamente. Mais tarde decidi, por causa do peso, deixar o vestido para levar no próximo ano, até porque precisa de uns ajustes e com o tecido fino poderá ser mais fácil arranjar cá. São peças muito bem cortadas. Existe cá uma tradição de alfaiates e modistas de grande qualidade.
Ao final do dia fui a casa da Shubra, para uma aula, juntamente com o Stephen. Foi uma aula muito boa, gravei-a, como costumo fazer com as sessões e ensaios de música indiana. Tomei realmente consciência que a Shubra está com sérios problemas vocais devido ao esforço permanente durante anos a fio de uma tradição vocal específica de uma escola conhecida por ser muito difícil. E também existe uma grande fragilidade ao nível pulmunar/brônquico/respiratório. No final da aula a Shubra disse-me que o Miguel , o Tarun e eu estávamos convidados a passar lá por casa no dia seguinte (dia do aniversário do Stephen). Voltei para casa.
Dia 22
Hoje é o dia do aniversário do Stephen. Fomos com o Miguel a um mercado artesanal em Dukshimapam. É um lugar grande, com muita variedade em oferta, qualidade e preços para todos os gostos. Passámos lá algumas horas, a ver, a escolher o que queríamos levar e almoçámos algo ligeiro. Foi a minha primeira experiência em apanhar um auto em vez de uber. 15 cêntimos, até à casa da Shubra! Daí apanhámos o autocarro para Dukshimapam. Os bilhetes são um rectângulo branco, estreito e fino. Veio-me à mente a lembrança dos bilhetes de autocarro de antigamente, em Portugal...
Às cinco chegámos a casa da Shubra, que estava a preparar a sala para a celebração. Esperámos um pouco no quarto do Stephen e depois fomos para a sala. A sanjukta e o marido estavam presentes. Ofereceram flores ao Stephen e votos de um excelente ciclo. Cantámos os parabés em bengal e português e comemos bolo de aniversário, chamussas, bolinhos e chá.
Às seis fomos à Sangeet Academy ver mais um concerta com a violinista Hinora que já conhecia, na primeira parte, e um cantor, aluno da Shubra, na segunda. Foi um concerto memorável. Deu, no entanto, para perceber a questão do esforço vocal na zona de mudança de registo de que já falei. Comecei a pensar como poderia ajudar estes cantores e cantoras com a prática e conhecimentos que tenho, a melhorar a sua performance. Eles já são tão bons, é uma questão de perceberem como podem usar o que já fazem de maneira mais eficaz e sem se esforçarem daquela maneira. Algo a pensar num futuro próximo.
Voltei para casa, com a mala já semi feita, para Delhi. Ia dormir cerca de 5 horas, pois tinha que me levantar às 3h15 do dia seguinte para ir para o aeroporto às 4 com o Stephen.
Dia 23
E assim foi, chegámos cedo ao aeroporto, antes das cinco. O Miguel já lá estava. Fomos fazer o check-in das bagagens e como se pensava tínhamos excesso de peso. Felizmente, nos vôos domésticos da Índia o preço por quilo em excesso ronda os cinco euro, por aí. Creio que se pagou cerca de 40€ mas tínhamos de encontrar uma solução para no regresso à Europa não houvesse problema. Eu já tinha pensado numa solução, mas o Stephen não quis pensar muito nisso. A questão é que tínhamos um estojo com 2 violinos que o Stephen transportava, mais um estojo vazio onde eu pus roupa, transportado por mim, mais dois estojos vazios na mala de porão do Stephen, e o Miguel trazia um tabla na mala de porão. Era muito estojo e instrumento. As malas de porão eram grandes e a política da British Airways permite o porte de instrumentos até 80 cm de comprimento como substituição da mala pequena de viagem. Pensei em pôr o estojo que trazia dentro da minha mala (4kg), o Miguel poderia trazer o tabla na mochila (5kg) e ele tinha um pequeno saco de viagem onde poderia pôr o computador. Eu tinha uma mochila com as medidas da bagagem de mão. Com o estojo dentro da mala de porão poderia ainda levar uma mala pequena comigo. Ficámos de comprar a mala em Delhi.
Após uma viagem de cerca de duas horas chegámos a Delhi, e dirigímo-nos para a casa onde iríamos ficar. Uma casa também de estilo colonial, decorada à inglesa, com várias casas e zonas onde relaxar, rodeados de árvores e flores. Bebemos um Masala Tea (o Tchai de Kolkata, mas mais picante nas especiarias, aliás masala quer dizer mistura de especiarias) e comemos umas bolachas de manteiga com pistachios muito boas.
Conversámos com a anfitriã para percebermos onde poderíamos ir. Decidimos ir para o centro de Delhi e apanhámos um Uber. Quando vínhamos do aeroporto já me tinha apercebido de que é uma cidade completamente diferente de Kolkata, com mais árvores, mais vegetação, mais moderna e com a pobreza menos aparente nas lojinhas dos passeios. Suponho que seja por ser a capital que parece mais sofisticada, mas também não andámos por toda a cidade.
O comércio é bastante como no ocidente em termos de tipo de lojas, que estavam sob arcadas, em áreas do que chamam Blocos, cada bloco com uma letra do alfabeto. Após andarmos um pouco fomos para uma Padaria/pastelaria que tinha pão fresco e refeições leves. À entrada, um painel com combinações de aromas para café, o menu esra visto numa televisão que passava tão depressa que nem dava tempo para perceber bem o que havia, e no iPad ao pé da caixa, também não era óbvio perceber toda a oferta, pela maneira como tinham dividido os serviços. Acabei por pedir um puré de beterraba com legumes e um sumo. O purá estava muito bom, acompanhado de legumes grelhados por cima, avelãs torradas e microvegetais. Estava mesmo muito bom, o Stephen tinha pedido o mesmo, mas ainda ficámos com fome, então dividimos uma tosta com cogumelos, cebola e tomate, também muito bem feita. Era um exemplo da comida gourmet da cidade, e um descanso para o sistema digestivo.
Saímos, e fomos ver postais para o Miguel enviar, procurámos os correios, para o fazer. Entretanto éramos constantemente assediados para nos engraxarem os sapatos, coisa que até estava tentada a fazer, não fora um homem ter dito que levava 50 rupias e outro 180 rupias, tendo-me levado para um lugar do passeio e dito para eu pôr o pé mas sem dizer o preço perante a minha insistência. Quando o disse entrei em curto-circuito, não conseguindo tomar uma decisão por causa da disparidade de preços, e preferi não ter as botas engraxadas...
Outro tipo de assédio foi o das crianças, a pedir dinheiro ou a querer vender algo. Há letreiros específicos a dizer para não dar esmola. Parece que as crianças são exploradas por adultos. O Miguel tinha dado 20 rupias a uma criança que tinha tido poliomelite, ao que parecia, pela condição das penas. Mais tarde vi-a a comer, sentada no chão. Tinha dado bom uso ao dinheiro. Aqui, o que me perturbou foi a maneira como abordavam as pessoas. Em Kolkata dei uma rupias a uma criança que me tentava vender algo saltitando e com um sorriso nos lábios.
Aqui, havia uma abordagem mais vitimizada, de certa forma manipuladora, o que é compreensível. Se não conseguiam obter o que queriam afastavam-se e a expressão mudava. É uma questão de sobrevivência, e fazem o melhor que sabem, não há praticamente escolha. Ao aperceber-me do puxar pelo sentimento percebi que estava desenraizada. Durante toda a viagem tinha decidido olhar para as pessoas com amor e boa-vontade. Era a minha maneira de lidar com as situações oferecendo algo ao mesmo tempo. Foi interessante ver as reações. Houve quem desviasse o olhar, quem baixasse o olhar, quem desafiasse, e quem respondesse do mesmo modo. Em Delhi senti que isso só fazia com que fosse mais assediada. Comecei a sentir que precisava de me enraizar e de me ligar a uma energia mais forte, mais decidida e focada. Como se comunicasse que não queria ser incomodada mas guardando a boa-vontade no olhar. E cruzei os braços. De facto eles perceberam e deixaram de me abordar.
Voltámos para a casa e jantámos. Antes de me ir deitar fui ver como podia arrumar a mala para o estojo do violino caber e tive de tirar um dos invólocros transparentes com fecho de correr que contina roupa. Esses sacos dão imenso jeito para organizar a roupa e tirar da mala. Tinha que primeiro tirar os 4 quilos que pesava o estojo com a roupa. O saco virou-se, e para grande surpresa minha vi o fio de prata. Fiquei estupefacta. Como é que ele tinha ido lá parar? Comecei a pensar que me tinha enganado, que tinha de pedir desculpa à alma da Viná, que tinha feito uma péssima suposição... Mas ao mesmo tempo algo não fazia sentido. Fui deitar-me, achando que a noite seria boa conselheira.
Estou a adorar!!!❤💜
Gosto de ler as tuas experiencias, espero que tenhas um otimo tempo na Índia, beijinhos,
Peter
Amando. Quero Mais